22 de abr de 2017

GRETCHEN´S WHEEL

É o nome do projeto da talentosa cantora, compositora, produtora e multi-instrumentista americana Lindsay Murray, natural da famosa Nashville. Criada na cidade berço do country, e derivados, se diz inspirada em seus trabalhos no alt-rock anos 90. Em particular, a sua sonoridade lembrou-me em algumas canções os primeiros trabalhos da obscura veterana compositora Alice Despard e outras com um tanto melódico e vocal de outra veterana Aimee Mann. Lindsay tem boas referências na sua música, como atenciosamente esclarece:

“Minha primeira grande influência foi Matthew Sweet, nos anos 90. Foi quando eu percebi que queria tocar guitarra e escrever músicas. Meus outros artistas e bandas favoritos na escola e na faculdade (eu ainda os amo todos!) eram Teenage Fanclub, Fountains of Wayne, Failure, Elliott Smith, Big Star, Sunny Day Real Estate e Built to Spill, entre outros”

O que podemos destacar em suas composições - na similaridade com as referências sonoras citadas – são as condições estéticas de forte acento pop, estruturas melódicas com arranjos bem elaborados e letras com abordagem sensível, introspectiva e feminina em particular descobertas e dúvidas existenciais, como dita na faixa de abertura do terceiro disco cheio “Sad Scientist”, de lançamento recente, “Better in the dark”:
“why’d you have to go and turn the light on /don’t you know you’re better in the dark /never to reveal all the things you feel /you can’t fail if you refuse to start”

24 de nov de 2015

EDNILSON E O ROCK BAIANO


“Rapaz, até hoje ainda tem gente que fala do Telefanzine”, me confessou Ednilson Sacramento, em rápida vista a João Pessoa. O veterano produtor baiano foi responsável por um feito inédito no cenário musical independente de Salvador, lá nos idos dos anos 90. O Telefanzine era uma forma alternativa de comunicação que durou pouco, mas marcou época na cena local e ainda guarda boas lembranças.

Com a perda lenta da visão, Ednilson afastou-se da cena musical e passou a dedicar-se na militância dos Direitos Humanos, através da ONG ARCCA, da qual é um dos coordenadores na Bahia. Entretanto não se afastou da música plenamente, pois ao longo dos anos escreveu o livro “Rock Baiano – História de uma Cultura Subterrânea”, lançado em 2002 e já com edição esgotada, no qual faz um apanhado, em 250 páginas, dos importantes personagens e momentos do rock baiano.

Recentemente, com o apoio de algumas instituições e da Prefeitura de Salvador, publicou uma atualização do livro no formato de áudio livro, cuja versão em CD vem divulgando em vários lugares com a ajuda de alguns amigos. Sendo uma publicação independente, a tarefa não é fácil em despertar interesse entre aqueles que não conhecem o passado e pouco preservam o presente. No fundo somos todos negligentes com a memória e são poucas as publicações no país que abordam o tema de forma abrangente. O lema “faça você mesmo” ainda se mantém vivo.

Contato de Ednilson:

(71) 99258-1961.

11 de out de 2014

Uma surpresa chamada Lowell

Ao ouvir o power trio cearense Lowell e seu EP "Everest?" tive uma grata surpresa logo
nos primeiros acordes de "Alone", guitarras no talo e sensibilidade pop da melhor safra. 
Melodias chiclete no bom sentido, baixo e bateria construindo a base para os ataques 
explosivos das guitarras. 
A quase balada "Spacemen" é a terceira música, começa com 
voz e violão e vai dando espaço pros outros instrumentos entrarem somando pungência 
a canção e abrindo espaço para sua irmã "Thank you" que segue o mesmo caminho 
da faixa anterior, mas dessa vez com o rock dando as caras desde o seus segundos 
iniciais. O nome da banda que tem como referência a cidade natal do escritor beatnik, 
Jack Kerouac, entrega as intenções das letras do Onni Matos que fica com o posto de 
vocalista e baixista, e a companhia de seus parceiros Sérgio Costa nas guitarras, violões 
e vozes adicionais, junto com o Carlinhos Perdigão na bateria e percussão, fazem a 
diferença, moldando a identidade do grupo. Entre todas as influências musicais citadas 
pela banda o R.E.M. me parece ser a mais próxima, até porque o som do Lowell pende 
mais pro rock alternativo americano de guitarras altas, do que a melancolia inglesa de 
dedilhados e reverbs psicodélicos. 
Boa pedida para acompanhar algumas doses.

(resenha por Igor Lima, baixista e vocalista de várias bandas em Jampa)

19 de set de 2014

O folk-pop de Arthur Matos

Talento de rara sensibilidade musical, o compositor e cantor sergipano Arthur Matos lançou seu terceiro álbum, intitulado "Accidental Light", como uma das melhores surpresas do ano. Um trabalho maduro, bem produzido e de extremo bom gosto. Sob o amparo de uma sonoridade folkster (indie folk, folk-pop), ele vai mais além da abrangência do que o significado remete. Compositor refinado, Arthur elabora canções expressivas e intimistas com a tipicidade bem peculiar do estilo – aqui deixadas ao dispor do ouvinte -, como postura exemplar contra o consumismo do pop rasteiro. Pode até soar pretensioso, mas diante de tantos artifícios apregoados no volátil cenário da música moderna, a singeleza de suas composições – com uma feitura de melodias/harmonias bem pensadas e produzidas -, o coloca no patamar da qualidade musical de alto padrão.

Em "Accidental Light" temos 11 faixas complexas, com ótima produção de Fabrício Rossini,
demonstrando o progresso musical do compositor, que vem sendo elaborado desde seus dois discos anteriores (por sinal, compostos em português). Reforçado por uma banda azeitada, com execuções primorosas, arranjos coerentes e timbragens vintage, contribuindo para o acabamento de um disco perfeito! Arthur tem a veia folk que nasce de vertentes tradicionalistas e deságua no melhor conceito formato pop. Citar nomes importantes, antigos e novos, como Bob Dylan, Tim Buckley, Neil Young, Steve Earle, Neil Halstead, Frank Turner; são exemplos de referências importantes para compreender o conteúdo sonoro do compositor. No disco, Arthur gravou as vozes e os violões e recebeu a ajuda providencial dos músicos Rafael Ramos (teclados) e Diego Santana (bateria). No álbum destacam-se as faixas “Life Holds”, “Marigold” e a faixa título. É um disco gringo!

Em breve entrevista, Arthur fala do disco e sua visão particular sobre música.

16 de set de 2014

DUELO DE CORDEL NA RODOVIÁRIA EM PLENO SÁBADO DE FOLIA

Sábado do Carnaval de 2004, começo da tarde no Centro de João Pessoa. Eu estava na loja de CDs em que trabalhava,aguardando chegar às 15h para voltar pra casa e pensar no que fazer em meio a folia que já predominava em toda parte. Já era umas duas e pouco da tarde e, comigo na loja, apenas um amigo de longa data, Thiago Mendes, que fazia Biologia na UFPB e, geralmente, aparecia aos sábados para conversar, sair pra beber vinho ou cerveja e – de vez em quando –, comprar algum produto da loja. Quando adentrou a loja nosso amigo de poucos meses e já enturmado com quase todos os frequentadores, o veterano metaleiro baiano Jurubeba (Wuldemberg Jr., seu verdadeiro nome) bem apreensivo, com uma mochila e uma bolsa de viagem e que foi logo intimando:

 – Tenho que viajar daqui a pouco para ‘Hellcife’ e encontrar a ‘baianada maluca’ la´de Feira (de Santana, sua cidade natal), que foi toda para o Carnaval de Rua que rola no Centro de Lá! Vamos lá, véio, me deixar na Rodoviária? – ele falou para nós dois. – Desmonte o ‘cacete armado’ que gente toma umas ‘cebrejas’ no caminho... – emendou, já se justificando e caprichando no ‘baianês’.

– Mas ainda não são 15:00 hs e estou sozinho na loja hoje! – expliquei com uma certa falta de interesse em sua farra. Até porque, tinha recém-acabado um namoro, não tinha planos (leia-se grana mesmo) e tenho pavor as festividades ligadas ao Rei Momo e Cia.

– É sábado de Carnaval, maluco! Ninguém mais vai aparecer por aqui. Bote fé! – ele de novo insistindo. – Pode fechar a birosca, dê um ‘zignau’ no trampo do Emerson (um dos donos) que a gente se ‘adverte’! Vá lá, dê uma providência que a hora tá correndo, meu veio! – voltando a falar e me perturbando.

5 de abr de 2013

O ABC do Rock



Amanheci gargalhando.
- O pessoal do rock é meio esculhambado! – a sentença já partiu de casa, da boca da minha mulher, rápida como um foguete espacial. Diga a verdade e saia correndo...
Dias antes tava conversando com um amigo, quando o mote surgiu: retratos do mundo rock. Ele mesmo falou que adora o meio porque, entre vários motivos, sempre há situações/causos engraçadas.
Num desses domingos foi realizado um show de rock num quintal de uma casa, bem freqüentado pelos roqueiros descolados da cidade. Vez por outra, a organização de certos eventos gera fiascos. A ausência de certas regras, ou imprevistos indesejados, sempre acontece. No caso, como o local não era especificamente para tal, se fez morada para o inusitado.

8 de jan de 2013

A Voz da Razão.

O homem é um ser em eterno conflito. Nem os princípios filosóficos de Voltaire e nem as benesses do bem querer do pregador Paulo de Tarso fariam jus as querelas da humanidade. Também pudera, no cotidiano da vida moderna de uma cidade grande, tudo é (im)possível.

Veja bem, o sujeito passa o dia trabalhando e ao chegar a casa, no começo da noite, para o seu sagrado descanso, às vezes é interpelado pelo improvável, para não dizer incômodo. Moro num edifício com dezenas de moradores, local onde ainda existem casas na mesma rua e em especial um vizinho que gosta de bons sons. Mas ele é de lua, e quando esta começa a crescer, seus delírios musicais são postos à prova. Numa dessas belas noites, estava ele a escutar nas potentes caixas de som do carro, estacionado na garagem de casa, um clássico do rock intitulado “Band on the Run” (1973) da banda Wings do nobre Sir Paul McCartney. É obvio que a referida trilha sonora tem décadas de existência e não agrada em alguns ouvidos mais jovens. Entretanto o marco da discografia rock é conhecido modelo de composição pop e recomendado que seja executado em hora e local mais apropriados. Talvez isso gere um bom motivo para discussão, mas passo.